Filme do He-Man abraça a galhofa com solos de guitarra, ação de primeira e um Jared Leto espetacular como Esqueleto.
Mexer com os ícones que marcaram profundamente a infância de várias gerações é sempre pisar em um verdadeiro campo minado de expectativas de bastidores. Quando as luzes das salas de cinema se apagam para a grande estreia de um novo live-action do He-Man, o coração do público nerd veterano aperta de ansiedade, enquanto os espectadores mais jovens assistem com pura curiosidade. Felizmente, o aguardado longa-metragem Mestres do Universo (Masters of the Universe), que acaba de fazer sua estreia oficial nos cinemas neste dia 5 de junho de 2026, consegue a incrível proeza de honrar o passado da marca sem se curvar ao peso dele. A produção entrega aos fãs uma aventura redonda, empolgante e absurdamente divertida. Dito isto, leia a nossa crítica de Mestres do Universo:
O roteiro assinado pela equipe de escrita opta abertamente pelo clássico e infalível estilo “feijão com arroz”. Por conta disso, o público não deve esperar por grandes reviravoltas filosóficas profundas ou por uma desconstrução complexa do gênero de super-heróis; trata-se de uma tradicional e muito bem-sucedida ‘jornada do herói’ em suas intenções. O maior mérito do texto de bastidores é ser totalmente autocontido, apresentando uma história com começo, meio e fim muito bem definidos que funciona perfeitamente de forma isolada. Embora o longa-metragem faça questão de deixar ganchos inteligentes para uma eventual sequência no futuro, em nenhum momento ele usa o amanhã da franquia como muleta para justificar furos de roteiro no presente. O espectador sai da projeção com a satisfação de ter visto uma obra completa e fechada.
Caracterização afiada e solos de guitarra lendários
A caracterização visual de todo o universo de Grayskull é um espetáculo artístico à parte na tela. Os figurinos dos personagens trazem uma fidelidade impressionante e respeitosa ao material original dos anos 80, apostando apenas em pequenas e cirúrgicas adaptações de figurino para que o visual clássico não soasse exagerado ou ridículo na tela grande. Além disso, cada membro do elenco principal recebeu o devido tempo de tela para conseguir desenvolver personalidades próprias e bem desenhadas.
Até mesmo o felino Pacato, cuja participação reduzida nas cenas de ação é justificada de forma muito inteligente e orgânica devido a limitações claras de orçamento para o CGI, entrega exatamente o que precisa e não deixa furos na narrativa. A evolução de Adam como He-Man convence o espectador, mostrando suas dificuldades reais ao empunhar os poderes místicos pela primeira vez, culminando em um amadurecimento genuíno até o ato final. No início, alguns podem estranhar o fato de ele manter a mesma personalidade logo após a transformação, mas isso se mostra totalmente justificável por se tratar estritamente de sua primeira experiência com a força de Grayskull.
Jared Leto redimido?
O grande destaque absoluto do elenco, contudo, atende pelo nome do astro Jared Leto. Seu Esqueleto é simplesmente magnífico em cena. Aqueles mesmos ceticismos, manias e maneirismos que o ator tentou e falhou em emplacar no infame Coringa do filme Esquadrão Suicida encontram aqui o lar perfeito no roteiro. Leto entrega um vilão maravilhosamente cínico, piadista, dono de risadas maléficas clássicas e movido pela mais pura e simples vilania de outrora: ele faz o mal simplesmente porque é mau, exatamente como víamos nos desenhos animados da televisão.
O longa ainda acerta em cheio ao abraçar, de forma caricata e divertida, a fixação cômica que o vilão tem pelo protagonista, beirando uma engraçada admiração pelos músculos e o poder bruto do herói. Para fechar os acertos técnicos de bastidores, a direção de arte brilha ao usar cores extremamente vibrantes, enquanto a trilha sonora se consolida como o coração pulsante da obra. Comandada por solos de guitarras eletrizantes e uma atmosfera musical puramente anos 80, a trilha sonora eleva cada cena de combate ao status de epopeia, com destaque absoluto para uma sequência de ação coreografada ao som da banda Queen, que vai fazer o cinema inteiro vibrar.
Conveniências de roteiro, alfinetadas políticas e o brilho da dublagem regional
Contudo, nem tudo são flores perfeitas no reino de Eternia. O tom do humor adotado pelo longa-metragem pode acabar dividindo opiniões e se tornando um incômodo para os cinéfilos mais exigentes da comunidade geek, especialmente na versão brasileira dublada. A adaptação dos diálogos pesa um pouco a mão ao tentar emplacar piadas frequentes de duplo sentido focadas na musculatura do herói e, de forma pouco sutil, no tamanho da sua ‘espada de poder’. Há também momentos específicos em que a comédia passa do ponto ideal e acaba invadindo sequências que demandavam uma carga maior de dramaticidade e seriedade dos personagens.
O roteiro também flerta pontualmente com o cenário político atual ao lançar pequenas alfinetadas para ambos os lados do espectro ideológico, embora isso surja apenas como piadas isoladas que somente o público mais atento e bem informado irá pescar. Além disso, o primeiro ato sofre com algumas conveniências de roteiro gritantes, onde a equipe de escrita demonstra uma certa preguiça ao escolher caminhos mais fáceis e menos criativos para mover as peças e resolver os conflitos iniciais.
Em contrapartida a esses pequenos deslizes de escrita, o público nordestino vai se sentir homenageado ao perceber o extremo carinho dedicado à localização brasileira da obra na versão tupiniquim. A dublagem nacional inseriu de forma muito natural e fluida diversas expressões que a gente usa bastante no nosso dia a dia por aqui, como ver o temido vilão esbravejar irritado contra um monstro “abestalhado” ou algum personagem soltar um legítimo e sonoro “vixe maria” bem no meio de um diálogo. Há espaço inclusive para uma piada rápida e genial fazendo menção geográfica direta à nossa famosa ilha de Fernando de Noronha, comparando-a com a beleza de Eternia.
Conclusão: O veredito definitivo sobre o retorno de Grayskull
Dessa forma, colocando todos os elementos na balança técnica, o saldo geral de Mestres do Universo se consolida como um acerto colossal e indiscutível dos estúdios. O filme é extremamente feliz em sua abordagem artística por conseguir dialogar e cativar dois públicos completamente distintos e com idades diferentes. A produção abraça com maestria os espectadores nostálgicos que cresceram assistindo fielmente ao desenho animado nas manhãs de sua infância, ao mesmo tempo em que se vende com extrema facilidade para a nova geração que está conhecendo o universo de Grayskull agora.
Portanto, o longa se posiciona como o blockbuster definitivo e a homenagem vibrante que a franquia merecia receber há anos nos cinemas. Divertido, visualmente magnético, com atuações inspiradas e inteiramente embalado pelo mais puro espírito cultural oitentista, o filme garante o seu lugar de destaque no ano de 2026.
Nota: 5 de 5.
⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
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